Poucas expressões são tão características da navegação quanto bombordo e boreste. Quem já embarcou em um veleiro, lancha ou navio certamente ouviu as instruções: “atenção a bombordo” ou “outra embarcação vindo por boreste”. Mas de onde surgiram esses termos? E por que, até hoje, uma luz verde indica um lado do barco enquanto uma luz vermelha indica o outro?
A resposta envolve história marítima, evolução linguística e, principalmente, segurança na navegação. Neste especial, explicamos a origem de bombordo e boreste. Também falamos da padronização internacional desses termos. E mostramos o motivo técnico das luzes verde e vermelha nas embarcações modernas.
A necessidade de padronização na navegação
Desde as primeiras civilizações marítimas, como os fenícios e vikings, a navegação dependia de referências claras para coordenar manobras. Diferente de um veículo terrestre, onde motorista e passageiro veem o mesmo lado, no navio a comunicação deve ser clara.Isso é ainda mais importante em situações de risco.
Se o comandante dissesse “vire à esquerda”, poderia haver confusão dependendo da posição de quem recebe a ordem. Por isso, a navegação adotou termos fixos, que se referem sempre à embarcação olhando da popa para a proa.
Foi nesse contexto que surgiram os termos equivalentes a bombordo e boreste.
A origem do termo boreste
O termo boreste tem raízes no inglês antigo. A palavra original era “steorbord”, que posteriormente evoluiu para “starboard”.
Nos navios antigos, o leme não ficava centralizado na popa, como nas embarcações modernas. Ele era instalado no lado direito do casco. Esse lado era chamado de “steering board”, ou seja, “lado do leme”.
Com o tempo, “steering board” transformou-se em “starboard”. Em português náutico, a adaptação linguística deu origem a “boreste”.
Portanto, historicamente, boreste era o lado onde ficava o sistema de governo da embarcação.
A origem do termo bombordo
Se o leme ficava à direita, naturalmente o navio precisava atracar pelo lado oposto para evitar danos ao mecanismo de direção. Esse lado passou a ser chamado, em inglês antigo, de “larboard”, termo que indicava o lado utilizado para atracação.
Posteriormente, para evitar confusão sonora entre “larboard” e “starboard” — especialmente em situações de vento forte e comunicação verbal difícil — o termo foi substituído por “port”, indicando o lado do porto, ou seja, o lado de atracação.
No português, a influência linguística veio principalmente do francês “babord”, que evoluiu para “bombordo”.
Assim, historicamente, bombordo era o lado oposto ao leme e utilizado para atracar nos portos.
Direita e esquerda nunca são usadas?
Na navegação técnica, evita-se usar “direita” e “esquerda”. Isso porque esses termos dependem da posição do observador. Já bombordo e boreste são sempre definidos considerando quem está a bordo olhando em direção à proa.
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Boreste = lado direito da embarcação
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Bombordo = lado esquerdo da embarcação
Essa padronização reduz drasticamente erros operacionais.
A padronização internacional
Com o avanço do comércio marítimo e o aumento do tráfego naval no século XIX, tornou-se fundamental estabelecer regras internacionais.
A consolidação dessas normas ocorreu com convenções internacionais que estabeleceram padrões de navegação e sinalização, culminando nas atuais regras internacionais para evitar abalroamentos no mar, conhecidas como COLREGs (International Regulations for Preventing Collisions at Sea).
Essas regras determinam, entre outros pontos, o uso padronizado das luzes de navegação.
Por que uma luz é verde e a outra é vermelha?
Se você observar qualquer embarcação navegando à noite, verá que um lado exibe luz vermelha e o outro luz verde.
A padronização funciona da seguinte forma:
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🔴 Luz vermelha: indica o lado de bombordo
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🟢 Luz verde: indica o lado de boreste
Mas por que essas cores foram escolhidas?
A escolha das cores: fatores técnicos e práticos
A escolha das cores não foi aleatória. Ela considerou três fatores principais:
1. Visibilidade noturna
O vermelho e o verde apresentam excelente contraste visual em ambientes escuros, facilitando a identificação à distância.
2. Diferenciação clara
As cores são facilmente distinguíveis entre si, reduzindo risco de confusão.
3. Influência ferroviária
Há registros históricos de que o padrão foi inspirado na sinalização ferroviária do século XIX, que já utilizava vermelho e verde como indicadores de controle e direção.
Como as luzes evitam colisões
A lógica das luzes permite que um comandante identifique rapidamente a posição e o rumo da outra embarcação.
Por exemplo:
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Se você vê apenas a luz verde, significa que está observando o lado de boreste da outra embarcação.
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Se vê apenas a vermelha, está diante do lado de bombordo.
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Se vê as duas simultaneamente, significa que a embarcação está vindo de frente.
Essa identificação rápida é essencial para aplicar corretamente as regras de preferência e evitar colisões.
Relação com as regras de prioridade
Nas regras internacionais de navegação:
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Quando duas embarcações se cruzam, aquela que vê a outra por boreste deve ceder passagem.
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Em cruzamentos, a embarcação que tem a outra à sua direita (boreste) deve manobrar para evitar abalroamento.
A iluminação verde e vermelha facilita essa decisão imediata, especialmente à noite ou com baixa visibilidade.
Evolução tecnológica da iluminação náutica
No passado, as luzes eram alimentadas por óleo ou gás. Com a eletrificação dos navios, passaram a ser elétricas. Hoje, a tecnologia LED domina o setor náutico, oferecendo:
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Maior eficiência energética
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Maior durabilidade
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Melhor alcance luminoso
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Menor manutenção
Apesar da evolução tecnológica, as cores permanecem exatamente as mesmas — um exemplo de como a tradição e a segurança caminham juntas na navegação.
Importância para embarcações de lazer
Mesmo pequenas lanchas, veleiros e motos aquáticas devem respeitar as regras de sinalização quando navegando à noite ou em condições de baixa visibilidade.
A ausência ou instalação incorreta das luzes pode resultar em:
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Multas
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Retenção da embarcação
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Risco real de colisão
A sinalização correta é parte essencial da segurança náutica.
Curiosidades históricas
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O termo “starboard” permaneceu inalterado no inglês moderno, enquanto “larboard” foi definitivamente substituído por “port”.
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A palavra “bombordo” mantém influência francesa, refletindo a forte tradição marítima da França nos séculos XVII e XVIII.
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A padronização das luzes verde e vermelha foi formalizada internacionalmente no século XIX.
Por que esses termos sobrevivem até hoje?
A navegação é uma das atividades humanas mais tradicionais e conservadoras em termos técnicos. Quando um padrão funciona e salva vidas, ele raramente é alterado.
Bombordo e boreste não são apenas palavras antigas: são elementos de um sistema global de comunicação que conecta embarcações de todos os países, independentemente do idioma falado a bordo.
Segurança acima de tudo
Entender a origem de bombordo e boreste não é apenas uma curiosidade histórica. É compreender um sistema que foi desenvolvido para evitar acidentes e proteger vidas no mar.
A iluminação verde e vermelha continua sendo uma linguagem universal. Quando uma embarcação avista outra no horizonte, não importa se o comandante fala português, inglês ou japonês: as cores transmitem a mesma mensagem.
Conclusão
A história de bombordo e boreste é a história da evolução da navegação. Nascidos da necessidade prática dos navios medievais, os termos atravessaram séculos e foram incorporados ao vocabulário marítimo mundial.
Da mesma forma, a padronização das luzes verde e vermelha representa um dos pilares da segurança náutica moderna.
Em um ambiente onde decisões precisam ser tomadas em segundos, a clareza na comunicação é vital. E poucas convenções são tão eficientes e universais quanto essa combinação histórica de linguagem e sinalização luminosa.
Na próxima vez que você observar uma embarcação cruzando o horizonte ao entardecer, repare nas luzes. Elas contam uma história que começou há séculos — e que continua garantindo segurança nos mares do mundo inteiro.
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